Para além de Hobbes

Texto de Olavo de Carvalho
Fonte: juliosevero.blogspot.com

Ante a condenação judicial do homeschooling, devo lembrar ao demeritíssimo que mesmo no Leviatã, a tirania absoluta inventada por Thomas Hobbes, os súditos conservavam “o direito de comprar, vender ou relacionar-se de outra forma; de escolher seu próprio domicílio, sua própria dieta, sua profissão, e de educar seus filhos conforme bem lhes pareça”.

O signatário daquela obscenidade não se conforma com tão liberais concessões à autonomia dos súditos: para ele, o Estado tem o direito de impor a todas as crianças a forma e o conteúdo da educação, passando por cima da autoridade dos pais mesmo quando estes tenham comprovado, como Cleber e Bernadeth Nunes comprovaram, sua capacidade de educá-las melhor do que o Estado jamais poderia fazê-lo.

Alegando “abandono intelectual”, o Estado exigiu, para prová-lo, que os filhos do casal, David e Jonatas, se submetessem a provas escolares — até aí, tudo bem —, mas manejou as provas de modo a torná-las bem mas difíceis do que aquelas a que são submetidos, nas escolas oficiais, os alunos da mesma idade dos dois meninos. Não eram provas, eram uma armadilha. Só com essa manobra, a autoridade já provou sua condição de litigante de má-fé e deveria ter recebido a punição judicial correspondente.

Em vez disso, David e Jonatas submeteram-se humildemente ao jogo sujo. Não só passaram, mas revelaram possuir, com 13 e 14 anos, os conhecimentos requeridos para ser aprovados em qualquer vestibular de Faculdade de Direito do país. Provado, portanto, que não havia abandono intelectual nenhum, qual o passo seguinte da autoridade? Desprovida de seu argumento inicial, apelou ao Plano B e condenou o casal Nunes de qualquer modo. Qual foi esse plano? Alegar que, sem escola, os meninos, mesmo intelectualmente preparados, são deficientes em “socialização”. Mas, se o problema deles era socialização, para que testar-lhes a capacidade intelectual em primeiro lugar? E qual a prova de que lhes falta socialização? O juiz não forneceu nenhuma: sua palavra basta. O que ele forneceu, sim, foi a prova de que Cleber e Elizabeth Nunes já estavam condenados de antemão, per fas et per nefas, para a glória do Estado onipotente e exemplo de quantos pais sonhem em retirar seus filhos do bordel pedagógico oficial para dar-lhes uma educação que preste.

O processo montado contra o casal Nunes foi fraudulento na inspiração, no encaminhamento e nas conclusões. Nem a justiça, nem a racionalidade, nem o interesse sincero na educação dos dois meninos passaram jamais pelas cabeças dos autores dessa farsa abjeta. Tudo o que elas quiseram foi impor a onipotência pedagógica do governo como um fato consumado, uma cláusula pétrea, um dogma indiscutível.

E por que o fizeram? Porque o governo necessita desesperadamente apossar-se das mentes das crianças, para usá-las como instrumentos na criação da sociedade futura, moldada nos cânones ditados pela ONU, pela Fundação Rockefeller, pela Fundação Ford, pela Fundação MacArthur e outras tantas organizações bilionárias firmemente decididas a implantar no mundo uma nova ordem socialista — um socialismo diferente, onde o controle estatal da economia, falhada a experiência soviética da intervenção direta, se fará pela via indireta e sutil do controle da conduta, da modelagem das consciências, da engenharia social onipresente e onipotente.

Nem os tiranos da antigüidade, nem os monarcas absolutos da Idade Clássica, nem Thomas Hobbes, nem Maximilien Robespierre, nem talvez o próprio Karl Marx imaginaram jamais estender o poder do Estado aos meandros mais íntimos da alma infantil, para fazer dela a escrava dos planos de governantes insanos.

Mas, para o nosso governo, isso é indispensável. Que será da revolução continental se as nossas crianças não forem amestradas, desde a mais tenra idade, nas belezas sublimes das invasões de terras, no ódio aos velhos sentimentos religiosos, no culto dos estereótipos politicamente corretos e na prática devota da sodomia?

José Diniz
"É na unidade de todas as forças revolucionárias que devemos trabalhar. Isso só se pode conseguir quando temos consciência de nossos fracassos passados: nem o reformismo estéril, nem a burocracia totalitária podem ser uma solução para nossa insatisfação. Trata-se de inventar novas formas de organização e de luta."
José Diniz
José Diniz
"A destruição da sociedade mercantil totalitária não é um caso de opinião, é uma necessidade absoluta num mundo que já está condenado. Pois o poder está em todos os lados, logo deve ser por todas as partes e por todo o tempo combatido."
Comentários
  1. Anonymous|8:41, 3. junho, 2010

    Na Boa, um site que se diz libertário e usa um texto do OLAVO DE CARVALHO tá pedindo pra ser zoado ei? O cara é um direitista conservador, defensor da TFP e da Igreja Católica entra outras milhares de bobagens conservadoras. É um imbecil paga-pau do Vaticano com zero conceito até pelos conservadores, bola fora eim?

  2. JDiniz|12:14, 3. junho, 2010

    Pow, este comentário logo neste texto? Me desculpe Sr. Anonimo, mas acho incoerentes suas afirmações. Pode ser que o Sr. Olavo tenha suas predileções com os católicos e tudo o mais. Mas este texto não deixa transparecer nada do que o Sr. disse. Me desculpe. O comentário bola fora fica, mas o texto é bola dentro!

  3. Anonymous|16:36, 5. junho, 2010

    Em nosso paìs, vemos criancas abandonadas a sua pròpria sorte. Escolas pùblicas, muitas, em total abandono. Professores, vezes sem conta, em greve por melhores condicões de trabalho e salàrio. Booling, banditismo, drogas e sabe là o que mais às criancas estão expostas nas dependencias de muitas escolas pùblicas como lemos nos jornais e, o anonimo aì de cima està preocupado com O texto do Olavo de Carvalho?

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