Bolsonaro quer exilar Paulo Freire de novo. Se deixarmos

POR MARIA IZABEL NORONHA

O jornal Folha de S.Paulo deste domingo (6) publicou matéria sobre a nefasta intenção do governo de Jair Bolsonaro de “expurgar” a obra de Paulo Freire do sistema educacional brasileiro, por atribuir-lhe a causa de todas as deficiências da nossa educação.
Como professora, sinto-me no dever de começar com uma constatação: nem Bolsonaro, nem seus filhos e nem seu ministro da Educação leram a obra de Paulo Freire.
Criticar algo sem sequer conhecer: isso sim é ideologia! E Bolsonaro tenta enganar a sociedade, afirmando querer “um país livre das amarras ideológicas”
Se eventualmente leram a obra de Paulo Freire, não compreenderam nada. Se o fizessem, “livres das amarras ideológicas”, poderiam formar um juízo mais isento.
Vejamos o que diz a matéria da Folha sobre Paulo Freire:
1. Há 72.359 citações de Pedagogia do Oprimido, clássico que completou 50 anos, registradas pelo Google Scholar, ferramenta de pesquisa para literatura acadêmica na Língua Inglesa.
2. Pedagogia do Oprimido é a 99ª obra mais citada do mundo, segundo a ferramenta, e Freire é o único autor brasileiro entre os 100 mais citados.
3. O livro Pedagogia do Oprimido também é a 2ª obra mais citada no mundo na área de educação em artigos em inglês.
O método Paulo Freire é Patrimônio Imaterial da nossa educação e cultura. Querer atribuir à obra e influência de Paulo Freire uma suposta “doutrinação” dos estudantes é ridículo e revela, ao mesmo tempo, ignorância e má-fé.
A concepção educacional de Paulo Freire rejeita a doutrinação, porque parte da interação entre professor e estudantes (de qualquer idade, em qualquer nível) como detentores de saberes e experiências que são trocadas no processo educativo. Logo, não confere ao educador o papel de “doutrinador”, nem ao educando a condição de uma consciência a ser manipulada.
Rejeitar o método freiriano, que reconhece no educando também o papel de protagonista, isso sim, é favorecer metodologias educacionais doutrinárias, impostas de cima para baixo.
Os problemas da Educação brasileira são outros:
1. Faltam escolas e professores. Os profissionais da Educação são mal remunerados.
2. As escolas públicas que existem são precárias e incompatíveis com as demandas educacionais do mundo contemporâneo. Muitas parecem presídios.

3. Em pleno século 21, nem todas as unidades de ensino têm internet banda larga.
4. Não há políticas públicas de prevenção à violência nas escolas.
5. Faltam bibliotecas, laboratórios, áreas adequadas e convidativas para esportes, cultura e convivência.
6. Políticos alinhados ao governo Bolsonaro usam forças policiais para agredir professores, estudantes e movimentos que reivindicam uma escola melhor.
Enfim, as deficiências reais da educação brasileira dariam uma lista gigantesca.
Posso dizer de forma categórica: infelizmente não há excesso de Paulo Freire na educação brasileira!
Ao contrário, se seus métodos e sua obra tivessem sido aplicados na íntegra ao longo do tempo, certamente a formação de nossos professores seria muito melhor e nossa educação estaria em um patamar tão superior que, provavelmente, a onda obscurantista que estamos vivendo não estaria acontecendo.
Nossa resistência ativa, nas escolas e fora delas, impedirá esse novo exílio de Paulo Freire.

Maria Izabel Noronha é presidente da Apeoesp, o sindicato dos professores da rede pública estadual de São Paulo.

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual (RBA)

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